sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Ska, a verdadeira raíz do reggae

A Jamaica sempre foi um paraíso para turistas. Imagine a cena: belas praias (talvez as melhores de todos o Caribe) e noites propícias a um luau, fartura de frutas tropicais e uma orquestra local tocando sucessos de Count Basie, Glenn Miller e outros mestres de big bands. Músicos como Don Drummond - trombone, ídolo de diversos grandes nomes do jazz americano - e Tommy McCook (saxofone) garantiam seu talento animando festas e hotéis da região de Montego Bay (uma das mais prósperas da Jamaica). Com o surgimento dos sounds systems (espécies de discotecas itinerante, que embalavam os jamaicanos com o melhor do rhythm'n'blues trazido dos EUA), eles decidiram partir para a criação de um ritmo realmente novo.
Não foi preciso inventar muito. Bastou colocar num mesmo caldeirão a experiência jazzística e todos os estilos musicais que há séculos desembarcaram na ilha como o mento (também conhecido como "o calipso jamaicano"), canções trazidas por piratas e a forte percussão, melhor herança e suas raízes africanas. O resultado soou como se Fats Domino tocasse em 45 rotações. Que se apoiava, porém, na presença forte da guitarra - cortesia de Jah Jery, que dizia que sua guitarra fazia "skat, skat". Nascia então o ska.
O novo ritmo embalou a proclamação da independência do país (eles se livraram do jugo inglês em 1962) e formou uma leva de superstars de respeito. Sob a batuta de Drummond e ligados ao Studio One, de Clement "Coxsone" Dodd (um dos primeiros estúdios de gravação a surgir no país), os Skatalites brilharam em composição próprias e gravações ao lado de Bob Marley, Bob Andy e outros.
O ska foi dotado pelos rude boys, como eram chamados os delinqüentes da ilha. Sem emprego e muito menos chance de prosperar na vida (a Jamaica sempre se caracterizou por uma economia catastrófica), eles se contentavam em levar a vida à base de fores doses de ska, Red Sripe (a cerveja jamaicana) e confusões edmundianas (de Edmundo, o boleiro). O estilo de vida dos rude foi glorificado em música como "Simmer Down", de Bob Marley ( The Wailers, e "Johnny Too Bad", dos Slickers.
Para os Skatalites, porém, o importante era produzir. Sob a batuta de Don Drummond (então promovido a diretor do Sudio One), eles brilharam em gravações solo, principalmente reciclando temas gringos- vide a versão da banda para "I Should Have Know Better", dos Beatles. Além disso, tocaram em gravações do Wailers, Ken Boothe e outros canários da ilha.
Um fato iria abalar para sempre a carreira dos Skatalites. Depois de uma discussão áspera com a namorada, Marguerita (uma dançarina de cabaré), Drummond matou a menina a facadas. A polícia chegou e encontrou o trombonista perdido, balbuciando palavras sem nexo e sujo de sangue. Recolhido ao hospício, ele definhou até morrer, em 1969. O grupo optou pela dissolução.
Seus integrantes passaram a trabalhar em outros estúdios de gravação, como o Federal, o Dynamic (de Leslie Kong, descobridor de Jimmy Cliff e Desmond Dekker, cantor de "Israelites") e o treasure Isle, de propriedade de Dukke Reid, considerado o rival número 1 de Coxsone Dodd.
O ska também havia perdido muito de sua popularidade. O grande culpado? O rock steady, ritmo saído dos laboratórios musicais de reid, que amansava os passos do ska. Mais tarde, ele seria readaptado pelo produtor Lee Perry e rebatizado como reggae.
Mesmo de curta duração, o ska foi importante para o desenvolvimento da música jamaicana. Rendeu artistas como Laurel Aitken (teoricamente o primeiro a gravar ska com "Boogie On My Bones"), Derrick Morgan, Prince Buster e outros, O gênero ressurgia glorioso nos anos 70, na Inglaterra, com a geração 2Tone.

André Godard.

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